Desapego, uma olhar objetivo sobre os desejos

desapego1A palavra vairāgya está presente em diversos textos dentro da tradição e, em geral, é traduzida como desapego. É muito comum em textos relacionados ao Yoga ou à espiritualidade se tratar desapego como abrir mão dos desejos. Porém, todos aqueles que já chegaram à vida adulta e conseguem se observar com alguma clareza podem perceber que é impossível deixar de desejar. O ser humano deseja muitas coisas e a todo instante. E assim que conquista o objeto de seu desejo, já possui uma longa lista de novos desejos na sequência. Então, se a mente continua desejando e não deveríamos desejar, a mente estaria com defeito? Teria o Criador feito a sua criação com algum tipo de defeito? Isso parece não ter lógica. E realmente não tem.

É verdade que a mente tem uma grande capacidade de desejar, mas até aí não vemos problema. Os desejos movem o ser humano em alguma direção. Porque meus pais desejaram ter três filhos que hoje estou aqui. Eu desejei muito estudar Yoga e encontrar professores capazes de me passar esse conhecimento, e por isso hoje sou praticante e instrutora de Yoga. Foi pelo desejo de muitas pessoas por acabar com a escravidão mercantil que hoje essa prática é proibida e condenada no mundo todo. Por ter desejos em comum, as pessoas se unem gerando laços de afeto, amor, familiares, grandes amizades. O desejo move pessoas, grupos e nações na direção de milhares de realizações todos os dias. Além de impossível se libertar dos desejos, também seria inviável. Se o objetivo da vida é ser feliz, quando temos um desejo e nos movemos em sua direção, sentimos um grande prazer, uma motivação em cada ação desse processo. Quando sonhamos com as nossas expectativas, existe por trás desse sonho uma alegria, uma disposição que nos traz vida! Então, onde está o problema? O problema está quando vinculamos a nossa felicidade na realização dos desejos e, portanto, quando não conseguimos realiza-los exatamente como planejamos ficamos infelizes, ansiosos, estressados.

Para exercitar o desapego é necessário ajustar o olhar sobre nós e sobre os desejos. Desapegar-se não significa reprimir os desejos, mas olhar para eles como eles são, simplesmente objetos e não a nossa fonte de felicidade. Desejar um carro, uma casa, uma bicicleta, uma viagem, mas compreender que tudo isso são apenas objetos. Que eles podem me dar momentos de prazer, alegria e conforto temporários, mas que não são a fonte da minha felicidade. E tudo certo em continuar desejando, mas tudo certo também se não consigo alcançar esse objeto. Isso também se aplica quando o foco do nosso desejo é um relacionamento, o outro. Como quando o desejo é por ter uma família, filhos, companheiro ou companheira ou quando desejamos que alguém com quem nos relacionamos mude algum comportamento. Em qualquer encontro da vida, entre pais e filhos, amigos, marido e mulher, namorados, qualquer um, as pessoas se encontram e se unem por afinidade, mas todos devem estar livres para ser quem são e para partir quando quiserem. É importante essa compreensão para aplicar a mesma regra para esses desejos. Não seremos mais felizes por ter filhos, ou uma esposa, ou um marido, ou porque alguém com quem nos relacionamos poderia agir de uma forma que consideramos mais adequada. Ninguém irá nos completar, já somos completos, felizes.
É importante compreender que esses conceitos apresentados nas escrituras védicas estão sempre inseridos dentro de um texto e são ensinados por um professor hábil em trazer a visão do Yoga para contextualizar cada palavra. Para ampliar esse entendimento trago aqui a visão da unidade, a visão de que nós e o Universo inteiro estamos unidos e feitos pelo mesmo material divino. Somos a criação e o próprio criador. Somos a felicidade e a plenitude. Assim, cada desejo nos impele a concretizar algo dentro da própria criação. Cada desejo concretizado, é o próprio criador se manifestando na criação. Devemos continuar desejando, planejando as ações para realizar o que nos move. Essa é a beleza da vida! Como pintores que estão dentro da obra, trabalhamos para pintar esse belo quadro, pintando formas e cores diferentes. Mas certos de que existem outros elementos nesse quadro que vão interagir com o que colocamos. A obra final poderá ser diferente do que imaginamos, mas será um belo quadro com todos os elementos combinados. Seguimos assim, sonhando, desejando, sem depositar em nada ou ninguém a necessidade de nos completar. Já somos completos, somos o Universo inteiro!

Por Carina Uchoas
Publicado originalmente no Satya Yoga

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