Onde está a felicidade?

Chega ao fim mais um domingo dando início a uma nova semana que já começa a aparecer. Existe felicidade na caneca de chocolate quente, um pequeno prazer para comemorar a semana que passou. A palavra comemorar vem do latim, commemorare, que significa lembrar-se, trazer à mente. Comemoro o dia que passou, a semana que passou, o mês que passou. Trago à memória os últimos acontecimentos e revejo o que vivi. Sonhos, planos, alguns se concretizam, outros não, quem sabe um dia. Quem sabe? E, em cada um desses momentos onde estava a felicidade?

A felicidade se esconde atrás de cada encontro. Encontros casuais, encontros marcados, com amigos, com desconhecidos. No sorvete de pistache, na risada de uma criança, na contemplação do céu, na ida ao cinema, no presente recebido, no preparo de um presente, na presença de quem amamos, em nossa própria presença. No perfume de uma flor, na lembrança de um amor, na leitura de um poema, na soneca depois do almoço, nos cafés da manhã saboreados com calma, na transparência e verdade da declaração de uma criança. Dividindo alegria, somando vivências e experiências, multiplicando sonhos e subtraindo da vida tudo aquilo que não é mais necessário, tornando-nos ainda mais simples. Tornando a vida uma simples sucessão de momentos de felicidade. É um pouco clichê, mas a felicidade está nas pequenas coisas, em cada segundo vivido, em cada instante de nossa vida.

Concluímos então que a felicidade também se esconde em momentos em que ela parece não estar presente. Por trás da descoberta de uma doença, de um desentendimento entre duas pessoas que se amam, na frustação de um amor perdido, nas experiências dolorosas de dependência de drogas, nos conflitos entre culturas, nas brigas familiares, na perda de uma pessoa amada, nos sonhos não realizados. A felicidade é a nossa substância, a nossa matéria, e está por trás de tudo que vivemos, situações prazerosas e não prazerosas. E o nosso desafio é conseguir nos ver, ver a nossa vida sob essa perspectiva. A medida que vamos conseguindo ampliar a nossa visão conseguimos desfrutar cada momento da nossa vida com força, alegria, vivendo realmente o momento presente. São aqueles momentos em que ao descobrir uma doença, nos fortalecemos interiormente, fortalecemos nossas relações. Ou quando nos deparamos com uma dificuldade de relacionamento e nos interiorizamos, buscamos dentro de nós a razão dos nossos desconfortos e conseguimos superar as diferenças. Ou quando superamos a dependência de um vício qualquer. Cada um desses clarões nos ajuda a enxergar a felicidade até mesmo diante das dificuldades.
Simplificar a forma como vivemos é essencial para desenvolver esse novo olhar. Muitas vezes confundimos simplificar a vida como nos abster de qualquer conforto ou forma de consumo, mas não é a isso que me refiro. O que quero dizer é que precede a qualquer reflexão sobre quem somos e o objetivo de nossa existência rever as nossas prioridades e o que consideramos essencial. Desenvolver um olhar realista, sem ser otimista ou muito menos pessimista, mas olhar nossas escolhas, vivências, relações de uma forma realista, para que seja possível discriminar o que é de fato necessário nessa viagem chamada vida, evitando sobrecarregar a nossa bagagem. Simplificar a vida nos ajuda a limpar a mente, cria um espaço mental para que essa idéia de felicidade seja mais facilmente compreendida.

A medida que avançamos nesse autoconhecimento, nesse caminhar que nos leva à compreensão de quem somos e de qual é o objetivo da vida, continuamos a todo instante a rever escolhas, criando cada vez mais espaço para que esse entendimento se consolide. E assim comemoramos cada conquista, revendo padrões que ficaram para trás para a construção de uma nova visão de nós mesmos, a visão do Yoga, o entendimento de que somos feitos de felicidade. Felicidade é nossa matéria prima e permeia cada momento, cada instante de nossas vidas.

Por Carina Uchoas
Publicado originalmente no Satya Yoga

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