Vedānta x problema existêncial

É comum estarmos sempre correndo atrás dos nossos desejos na tentativa de nos preenchermos de alguma forma. Existem dois tipos de satisfação que são comuns entre nós: artha (segurança) e kama (prazer). Contudo, eles não duram muito. Sempre estaremos nesse jogo de ganhos e perdas na busca dessa satisfação. Se não tivermos a maturidade para entender ambos os lados de uma determinada situação estaremos sempre com uma sensação de insuficiência.

Assim, é importante aprendermos aceitar o resultado das nossas ações, já que o resultado está além do nosso comando. É importante saber relaxar e apreciar aquilo que recebemos como resultado das nossas ações, já que ele pode vir de 4 formas: acontecer exatamente o que prevíamos, acontecer a mais do que prevíamos, acontecer a menos do que prevíamos ou acontecer algo totalmente diferentes do que prevíamos. Mas parece que esquecemos dessas condições quando algo não acontece da forma como imaginávamos.

A insegurança que tenho não pode ser intrínseca a mim, pois ela vem e vai. Se não me libertar dos meus medos e condicionamentos ela continuará presente e me incomodando.

Contudo, quando consigo amar, por um momento, essa sensação desaparece. Por quê? Porque a pessoa que eu quero ser está centrada no Ser. Portanto, para nos livrarmos desse conflito a única solução é o conhecimento do Eu ou auto-conhecimento.

Mudanças acontecem a todo instante, já que nada é permanente e perfeito. Muitas vezes queremos que determinadas situações ou objetos não mudem. Isso é sinal de imaturidade. Enquanto não aprendermos a lidar com essa dança do Universo iremos ficar presos nessa roda e continuaremos sofrendo.

O que muitas vezes esquecemos ou não sabemos é que podemos ser felizes mesmo sem satisfazer os nossos desejos. Não há nada de errado em ter desejos até mesmo porque a insatisfação em relação aos desejos não conquistados é o que nos move em direção à algo, à agir.

O estudo do Vedānta, a parte final dos Vedas, nos aponta que aquilo que pode nos preencher já somos nós mesmos. Portanto, sou eu quem deve ser conhecido. Quem sabe eu não sou a solução do problema? Quem sabe os śastras (escrituras) não estão certos? Para isso, é necessário um meio de conhecimento específico chamado brahmavidyā (conhecimento do Ser), que é feito de palavras. Essas palavras quando cuidadosamente usadas apontam para aquilo que eu sou e são o meio de conhecimento. Alguém que seja qualificado pode nos mostrar esse espelho através do uso das palavras.

Olhar no espelho de Vedanta é olhar para si mesmo!

Por Vicente Morisson
Publicado originalmente no Vedanta, Yoga e o Mar.

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