Dharma pra quê?

Quando comecei a praticar Yoga me deparei com o conceito de dharma. Lia e ouvia muito sobre o assunto, mas pouco entendia. Era muito comum ouvir a expressão: “Você deve seguir o seu dharma”. Na época, tinha um emprego burocrático, com pouco espaço para a sensibilidade e a criatividade. Não gostava muito do que fazia e a competitividade dentro da empresa era bem sufocante. Como o meu trabalho não me agradava de todo e eu pensava que deveria ter um dharma especial, tinha muitas fantasias. Imaginava que em algum momento haveria um grande acontecimento histórico que me abriria os olhos e então um emprego maravilhoso apareceria na minha vida. Esse seria o meu dharma. Ledo engano! Minha visão estava equivocada. O conceito de dharma vai muito além e quando permeia as nossas relações acaba trazendo harmonia para elas.

Com a prática e o estudo do Yoga, essa idéia foi ficando cada vez mais clara pra mim. E foi se firmando uma nova forma de enxergar o meu trabalho e todos os campos da minha vida, todos os relacionamentos. Fui compreendendo que eu não precisaria mudar de emprego para seguir meu dharma, mas mudar a forma como eu o via e como eu me relacionava com o trabalho e as pessoas ao meu redor. Isso não significa que eu não deveria procurar mudanças na minha vida, mas aquele era o emprego que eu tinha e que considerados prós e contras, era uma boa escolha naquele momento. Então, eu deveria seguir o dharma, fazer o meu trabalho da melhor maneira possível pra mim e agir com os outros como eu gostaria que agissem comigo. E assim fui treinando a minha visão procurando trazer o dharma para cada uma de minhas ações. Para cada dificuldade no trabalho, cada dificuldade nos relacionamentos, eu evocava essa motivação.

Houve muitos momentos de dúvida sobre qual caminho seguir. Na maioria das vezes contrariar o dharma me traria uma série de benefícios financeiros, bons posicionamentos na empresa e facilidades no trabalho. Agir com retidão, como aprendi com meus pais, não era o esperado naquele ambiente e a competição deixava lá atrás aqueles que optavam por esse caminho. Eu ficava encurralada entre o que deveria fazer, a ação adequada e que não ferisse as pessoas ao meu redor, e as ações automáticas, que me trariam benefícios sociais e facilitariam o meu trabalho naquele momento. Parece simples escolher o dharma já que é muito evidente que esse é o caminho que nos traz mais tranqüilidade interna. Mas não era simples. As emoções se tornavam fortes e chegavam a turvar a minha mente. Embora eu optasse por realizar uma ação com base em não ferir o outro, eu me sentia frustrada por não obter o reconhecimento no meu trabalho por isso. Nesse caso seguir o dharma contrariava o meu desejo por reconhecimento ou conquistas. E a consequência era uma desmotivação profissional que muitas vezes me impedia de fazer o melhor que podia. Foi uma construção gradual de uma nova visão, com um treinamento de olhar, para achar o ponto de equilíbrio entre o desejo e o dharma. Continuar desejando, continuar agindo de forma deliberada a contribuir para a harmonia do ambiente e não depositar a minha felicidade naquilo que desejava era um exercício que exigia esforço. Optar pelo dharma é abrir mão do desejo, não me tornar dependente dele.

Já não trabalho mais nessa empresa. A mudança no meu caminho profissional foi consequência de uma constatação de que hoje contribuo mais com o universo ao meu redor propagando essa visão que tenho aprendido. É muito comum as pessoas falarem que agora sigo o meu dharma, mas isso não é verdade. Sei bem como me esforcei para viver o dharma naquela empresa durante todos aqueles anos. Viver o dharma é estar presente, agir de forma deliberada, consciente, considerando a sua melhor forma de ação e a que mais trará harmonia às relações envolvidas. E quando você toma essa consciência do seu papel, do que deve ser feito por você, você se alinha com as leis que sustentam o universo, resultando em um estado de paz interior, aquela sensação de dever cumprido, de leveza, de proteção.

Por Carina Uchoas
Publicado originalmente no Satya Yoga

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