Coragem, uma atitude necessária

 

Desejava por muitas mudanças quando busquei o Yoga. Mudanças na alimentação, no relacionamento com o meu próprio corpo e mente, no relacionamento com as pessoas próximas, nos hábitos do cotidiano. A prática então me forneceu tudo o que eu precisava. E, aos poucos fui mudando o estilo de vida. Estava realmente caminhando na direção que gostaria. Mas à medida que as mudanças ocorriam precisava entrar em contato cada vez mais comigo mesma. E para seguir adiante nessa busca por autoconhecimento foi necessário cada vez mais coragem. A coragem foi um requisito importante para persistir no trajeto e a todo instante tenho que evocar essa capacidade para permanecer firme no caminho.

É preciso coragem para deixar as situações que nos embriagam e nos anestesiam para iniciar um processo de autoconhecimento. Caminhar na direção contrária ao que é amplamente difundido em nossa sociedade para buscar a felicidade em nós mesmos é desafiador. Isso porque encontramos em nós tudo àquilo que rejeitamos, que gostaríamos que fosse diferente. Entramos em contato com os nossos pensamentos, emoções, tendências e passamos por um processo de lidar com àquilo que julgamos negativo, para compreender sua origem e então chegar à raiz de todas as aflições, a noção equivocada de ausência, limitação. Se todo o nosso sofrimento tem como base a sensação de limitação, que nos faz buscar a completude através de objetos, pessoas ou situações, fazer o caminho contrário é nos deparar com todas as frustrações, raivas, mágoas, e sentimentos que deturpam a nossa visão. O caminho de retorno para o reconhecimento de nossa natureza completa e feliz passa pelo reconhecimento das emoções, sentimentos e o conhecimento de nosso comportamento para investigá-los e depois acessar a raiz do problema.

A grande questão é que olhar para o nosso “espelho interno” nos traz uma imagem que não gostamos de ver. Como seres manifestos somos limitados, temos fraquezas, somos vulneráveis e podemos ser exatamente àquilo que condenamos. Compreender que somos resultado de muitos fatores, o tempo espaço em que estamos vivendo, a educação que recebemos, os relacionamentos à nossa volta, as ações do passado, etc., nos liberta da necessidade de sermos diferentes. Mas precede a essa constatação a coragem para se ver. Aprender a lidar com as emoções faz parte do caminho para o autoconhecimento, mas para isso é preciso coragem para encará-las de frente.

Durante muito tempo usava em minha prática como sankalpa, a confiança. Sabia exatamente que esse era o meu ponto fraco. Em muitos momentos marcantes da minha vida, a confiança em mim mesma era meu ponto fraco e eu precisava lidar com isso. Sou estudante e praticante de Yoga já há alguns anos, mas em muitos momentos me deparo com a imensidão e a profundidade do ensinamento. Vejo-me pequena frente a todo esse conhecimento, e isso abala a minha confiança em mim mesma. E, esse é o momento de intensificar as práticas com a coragem de encarar essa minha vulnerabilidade. Encarar o que vem por trás disso. Eu não preciso mudar, mas tenho que reconhecê-la para que ela retorne ao tamanho que é, simplesmente uma emoção, e não tome conta de mim. Não é simples se reconhecer vulnerável, mas é necessário. A coragem para se ver exatamente como se é, sem maquiagem, e com toda a carga emocional que isso representa é passo principal para quem quer se ver livre, para quem quer se ver para além das próprias limitações.

Por Carina Uchoas Publicado originalmente no Satya Yoga

Fotografia : Flavio Rodrigues

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